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A falsa bondade e a política: reflexões sobre a piedade cova

Análise sobre como a compaixão de fachada, descrita por Stefan Zweig, se manifesta na política e na burocracia de Mato Grosso, afetando a vida dos servidores e

Análise sobre como a compaixão de fachada, descrita por Stefan Zweig, se manifesta na política e na burocracia de Mato Grosso, afetando a vida dos servidores e cidadãos.

Anton Hofmiller, um oficial de cavalaria do Império Austro-Húngaro em 1913, é o protagonista de uma história que ilustra a fragilidade moral humana. Vaidoso e medíocre, ele comete o erro de convidar para dançar a filha de um nobre, Edith, sem saber que ela era paralítica. O gesto, motivado pelo desejo de parecer gentil, desencadeia uma tragédia. Este é o cerne de A Impaciência do Coração , romance de 1939 de Stefan Zweig, autor que também cunhou a famosa frase sobre o Brasil ser o "país do futuro".

A obra de Zweig, escrita no exílio enquanto a Europa caminhava para o colapso, disseca o que ele chama de "piedade covarde". Trata-se de uma compaixão que serve mais para aliviar o desconforto de quem a pratica do que para ajudar quem sofre. Hofmiller não é movido por amor, mas pela urgência de se livrar da culpa por ter causado constrangimento. O médico Condor, personagem que atua como a consciência moral do livro, alerta que a piedade sem responsabilidade é mais destrutiva que a indiferença.

Essa dinâmica de bondade performática encontra paralelos contemporâneos, desde o uso de causas sociais nas redes sociais para ganhar visibilidade até o debate político polarizado. Em Mato Grosso, a tragédia ocorrida em 13 de agosto, no distrito de Cangas, em Poconé, onde duas agentes comunitárias de saúde — Maria Helena do Carmo e Cleidineia Eucaris da Costa — foram brutalmente assassinadas, trouxe à tona reações institucionais que lembram a piedade de Hofmiller. Deputados e autoridades propuseram medidas como sprays de pimenta ou porte de armas, gestos que parecem mais voltados a aplacar a opinião pública do que a resolver a raiz da violência.

O Legislativo, muitas vezes, utiliza projetos de lei natimortos ou inconstitucionais para gerar expectativa e criar vilões, transferindo a responsabilidade para o Executivo ou Judiciário. A pauta do RGA (Revisão Geral Anual) é outro exemplo dessa performance. Prometer reposição salarial sem considerar a realidade fiscal, sabendo que o caixa não comporta o gasto, é usar o servidor como palco político, sem um compromisso real com a solução do problema.

A gestão dos descontos consignados dos servidores estaduais também revela como a burocracia estatal, sob o pretexto de eficiência, perpetua abusos. Durante quase uma década, descontos foram criados por decretos ou convênios, sem a devida transparência ou base legal sólida. O Fundesp, por exemplo, foi alimentado por taxas que variaram de leis discutidas na Assembleia a decisões administrativas obscuras, como os 4,8% cobrados em convênios com financeiras, cuja finalidade e fiscalização permanecem sob suspeita.

A correção desses abusos, ocorrida apenas sob pressão do Ministério Público, demonstra que a máquina pública muitas vezes só recua quando flagrada. Não houve um zelo espontâneo dos gestores, mas uma necessidade de contenção de danos. O servidor, assim como a personagem Edith, não pode se iludir com promessas que não se sustentam até o fim. A luta pelo direito, como ensinou Rudolf von Ihering, exige vigilância constante e não pode ser delegada a discursos eleitorais vazios.

O cenário político atual, marcado por candidatos que prometem renovação enquanto ocupam espaços há anos, reflete a mesma "impaciência do coração". A verdadeira mudança, assim como a compaixão criadora descrita por Zweig, exige sacrifícios e a disposição de abrir mão de privilégios, algo raro na política local. Mato Grosso, um estado construído por migrantes em busca de uma vida melhor, merece mais do que a retórica da piedade covarde.

Em última análise, a polarização entre direita e esquerda serve frequentemente como uma cortina de fumaça para ocultar a incapacidade de gestão e o descompromisso com o bem comum. O cidadão e o servidor público precisam aprender a distinguir entre o gesto que busca o aplauso e a ação que traz resultados concretos. A história de Hofmiller serve como um lembrete atemporal: a bondade que não assume as consequências de seus atos não é virtude, é apenas uma forma sofisticada de egoísmo.

Fonte: midianews.com.br