Montenegro avança rumo à União Europeia sob risco de interfe
Montenegro consolida-se como favorito à adesão à UE, mas analistas alertam para manobras de Belgrado que visam desestabilizar o processo e manter influência regional.
Montenegro desponta atualmente como o principal candidato a integrar a União Europeia. Contudo, diplomatas, especialistas e autoridades demonstram preocupação com a possibilidade de Belgrado utilizar todos os meios ao seu alcance para obstruir esse desfecho, colocando Bruxelas em uma posição delicada entre as duas nações candidatas. Enquanto o país montenegrino avança em direção à meta, o caminho da Sérvia permanece estagnado, com capítulos de negociação ainda fechados e bloqueios impostos por oito Estados-membros no mês passado.
O eurodeputado Tonino Picula (Croácia/S&D) destacou, antes de uma votação plenária em julho, que ações do governo sérvio e de partidos de oposição têm gerado complicações internas em Montenegro. Fontes da Comissão Europeia e de governos nacionais confirmaram estar cientes dessas tentativas de interferência, um cenário considerado inédito para a diplomacia da UE.
Jovana Marović, ex-vice-primeira-ministra montenegrina, afirmou que a Sérvia busca moldar o país vizinho por dentro, influenciando sua identidade nacional. Segundo ela, esses esforços tendem a persistir mesmo após a entrada de Montenegro no bloco europeu. Marović aponta iniciativas como a tentativa de elevar o sérvio ao status de língua oficial na Constituição e a polêmica mudança de nome da Biblioteca Nacional de Podgorica como evidências de uma estratégia para substituir o patrimônio antifascista por políticas identitárias.
Apesar das tentativas de criar divisões étnicas, inclusive com movimentos municipais para anular o reconhecimento do Kosovo, a elite política de Montenegro tem demonstrado coesão. Em julho, 74 dos 77 deputados votaram a favor da abertura de uma reforma constitucional, um consenso reafirmado no final de agosto com a aprovação das mudanças por uma maioria de dois terços.
A relação entre os dois países é marcada por um histórico conturbado. Montenegro recuperou sua independência da Sérvia apenas em 2006. Em maio, o presidente sérvio, Aleksandar Vučić, criticou duramente as celebrações do 20º aniversário da independência montenegrina, classificando-as como uma ofensa. Posteriormente, em Tivat, Vučić alegou ter sido alvo de um plano de assassinato por clãs criminosos montenegrinos, elevando a tensão diplomática.
Florian Bieber, coordenador do Balkans in Europe Policy Advisory Group , avalia que a Sérvia pode atuar como um fator de bloqueio, uma vez que a adesão de Montenegro à UE enfraqueceria a liderança regional de Belgrado. Com quase um terço da população montenegrina sendo de etnia sérvia, a influência do país vizinho é exercida por meio de aliados políticos, mídia e da Igreja Ortodoxa Sérvia.
Por outro lado, o embaixador da Sérvia junto à UE, Danijel Apostolović, negou qualquer interesse em interferir no processo montenegrino, focando nas reformas internas sérvias e lamentando a falta de uma decisão estratégica da UE sobre a abertura do Cluster 3 para o seu país. Para Bruxelas, o impasse é um desafio estratégico, dado que Montenegro é o candidato mais próximo da adesão, enquanto a Sérvia é vista como um ator regional indispensável.
Belgrado frequentemente questiona o Estado de direito em Montenegro, citando a presença de clãs criminosos e a ausência do sérvio como língua oficial como pontos de atrito. Em contrapartida, Podgorica defende que seu sucesso nas reformas se deve a uma abordagem inclusiva e estável. Diplomatas alertam, contudo, que a persistência das divisões étnicas e a pressão externa podem comprometer a reta final de Montenegro rumo à plena integração europeia, deixando a UE como uma observadora cautelosa diante da instabilidade nos Balcãs Ocidentais.
Fonte: pt.euronews.com