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O paradoxo da comunicação: por que o excesso de explicações

Muitas vezes, o excesso de detalhes gera confusão em vez de clareza. Entenda por que simplificar é uma demonstração de domínio e como ser mais eficaz ao se comunicar.

Existe uma crença amplamente difundida de que a clareza de uma ideia é diretamente proporcional à quantidade de informações fornecidas. A lógica sugere que, ao acrescentar mais detalhes, argumentos e dados, o interlocutor terá mais facilidade em compreender a mensagem. Contudo, a prática cotidiana revela que esse raciocínio nem sempre é verdadeiro. Frequentemente, o excesso de explicações produz o efeito oposto ao desejado: dispersa a atenção, gera confusão e cria barreiras para o entendimento.

É fundamental compreender que o ato de comunicar vai muito além da simples transmissão de dados. Comunicar significa garantir que a mensagem seja efetivamente assimilada pelo outro. Existe uma distinção clara entre o que é dito e o que é, de fato, absorvido. Portanto, a qualidade da comunicação não é determinada pelo volume de conteúdo, mas pela capacidade de ser claro e objetivo.

Essa dificuldade é recorrente em ambientes acadêmicos, como observado em apresentações de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). Após meses de dedicação à pesquisa, muitos estudantes sentem a necessidade de expor todo o processo realizado. No entanto, a banca examinadora busca o essencial: o objeto de estudo, a relevância do tema e as conclusões alcançadas. Saber selecionar o que deve ser dito não é um sinal de falta de conhecimento, mas sim uma demonstração de domínio sobre o assunto.

Stephen Covey, autor da obra Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes , defendia a máxima de que é preciso primeiro compreender para depois ser compreendido. Embora a frase seja frequentemente aplicada ao contexto da escuta, ela oferece uma lição valiosa sobre a clareza na fala. Comunicar-se bem exige uma análise prévia de quem está ouvindo: o que o interlocutor já sabe, quais são suas necessidades e qual linguagem é mais adequada para aquele contexto.

Simplificar, portanto, é um desafio complexo. Para remover o excesso sem comprometer a essência, é necessário ter um entendimento profundo do tema. Quem domina um assunto consegue selecionar, organizar e traduzir conceitos complexos para torná-los acessíveis. Simplificar não significa empobrecer uma ideia, mas sim garantir que ela chegue ao destino sem perder sua importância fundamental.

No cenário profissional, esse desafio é constante. Um advogado, por exemplo, precisa explicar questões jurídicas a um cliente sem transformar a consulta em uma aula técnica. Da mesma forma, um médico deve traduzir diagnósticos sem exigir que o paciente possua conhecimento especializado. Um gestor, por sua vez, precisa orientar sua equipe sobre processos e resultados esperados de maneira direta. Em todos esses cenários, o conhecimento técnico é indispensável, mas só se torna útil quando encontra uma linguagem que conecta quem sabe a quem precisa entender.

Vivemos em uma era de saturação informativa, onde mensagens, reuniões, notícias e notificações disputam nossa atenção a cada segundo. Nesse contexto, a clareza deixou de ser apenas uma virtude para se tornar uma necessidade absoluta. Muitas vezes, as pessoas não precisam de mais informações, mas sim de auxílio para filtrar e compreender o que é realmente relevante.

Antes de adicionar mais uma camada de explicação, é recomendável questionar: o que eu realmente desejo que o outro compreenda? Essa reflexão pode eliminar o excesso de palavras desnecessárias. A eficácia da comunicação não é medida pelo volume de argumentos ou pela quantidade de dados acumulados, mas pela clareza da mensagem produzida. No fim, o sucesso na comunicação pertence àqueles que conseguem ser compreendidos.

Michelli Egues é mestre em Direito, professora universitária e advogada servidora pública. Atua como palestrante e mentora no desenvolvimento de liderança, comunicação, oratória e apresentações.

Fonte: rdnews.com.br